segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Jesus no Mil Folhas

Vale a pena ler o Mil Folhas do último sábado, com um dossier muito interessante - “Jesus está na moda” - sobre as novidades na edição que tratam da figura de Jesus. Para além da crítica a algumas dessas obras, oriundas das mais diversas áreas do conhecimento (Teologia, História, Arqueologia, Psicologia), há uma entrevista do poeta Tolentino Mendonça, a propósito da sua tese de doutoramento em Teologia, "A construção de Jesus”, editada pela Assírio & Alvim. Excelente entrevista. Vejam este excerto:
«Jesus era respeitado como mestre no seu tempo, na misericórdia para com os pobres ou nos sinais proféticos que fazia, os milagres. Não é esse o ponto de ruptura. No discurso de Lucas, a ruptura é a proximidade de Jesus com os pecadores e a maneira como ele não respeita o espaço dessa divisão social [para com os pecadores, párias da sociedade], mas acolhe a proximidade com os pecadores. Isso é absolutamente impertinente.
Jesus dissolve estas fronteiras no interior da sociedade, falando de um perdão que já não passava pelo Templo, mas pelo encontro com ele próprio e com a descoberta da sua identidade divina.»


Eutanásia

Ainda a propósito de Million Dollar Baby e da temática da eutanásia, vejam o que diz aqui o bispo Elio Sgreccia, vice-presidente da Academia Pontifícia para a vida.
Por muito católico que seja, tenho muita dificuldade em entender este tipo de argumentos:
«A mellhor solução não é a de antecipar e a de acabar com a vida atormentada, mas a de oferecer razões de esperança e de sentido para o sofrimento.»
Quando a vida é só vegetação, que sentido faz exigir o extremo sofrimento?


quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Eu não me esqueço

O governo de Durão Barroso obrigou-nos a passar a humilhação de ser anfitriões da cimeira da invasão ao Iraque.
Agora que toca falar de assuntos importantes, e provavelmente começar a dividir os despojos, alguém viu Bush no Terreiro do Paço?
O governo do PSD ainda em funções tem algo a dizer sobre esse assunto?
Algum jornalista português vai perguntar a Bush se está de visita ao amigo Durão?
Esta gente não tem vergonha?

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Million Dollar Baby

Há filmes que me deixam incomodado, que me perturbam profundamente, que conseguem verdadeiramente deixar-me deprimido. Chego ao fim com a ideia de que vi cinema a sério, mas de certa forma arrependido por não ter ficado em casa. É uma coisa que me pergunto, porque será que certos realizadores gostam de entristecer os espectadores? Um bom exemplo é Lars Von Trier, por quem tenho uma grande admiração, e julgo mesmo que será o melhor realizador da actualidade. Uma característica comum em muitos dos seus filmes é o espezinhamento das suas personagens. O realizador gosta de brincar com os nossos sentimentos. Faz-nos ficar apaixonados por personagens singulares, muito bondosas e ingénuas, apenas com a intenção de as fazer sofrer, de as humilhar, diante dos nossos olhos. Saímos dos seus filmes absolutamente angustiados. Por isso, gostei tanto de Dogville, que tem a vantagem de nos oferecer, depois de duas horas de sufoco, uma momento de regeneração, quando, evocando os nossos sentimentos primários, permite a vingança da maldade provocada pelos habitantes da aldeia. Conscientes de que fizemos justiça com as próprias mãos, chegamos ao fim satisfeitos.
Lembrei-me de tudo isto por causa do último filme de Clint Eastwood (que obviamente tem um registo muito diferente de Lars Von Trier). Já foi tempo em que gozava com o meu irmão quando ele me dizia que era o seu realizador favorito. Aquele cinema de cowboiada tardia, cheio de estilo e pose, parecia-me digno de riso. Entretanto, Eastwood evoluiu muito, e começou a fazer filmes cada vez melhores, até chegar a um patamar muito, mas mesmo muito bom. O problema dele é que anda interessado em temas pesados, como a pedofilia e a eutanásia, impossíveis de pegar sem ser para incomodar.
É o que acontece com “Million Dollar Baby” - um filme com uma temática tipicamente americana, a vontade de vencer, a luta pelo sucesso. Numa narrativa sóbria, sem moralismos nem reflexões explícitas, o filme prende-nos a uma história cruzada de pessoas com diferentes perspectivas de vida, umas desalentadas e hesitantes, outras cheias de vontade de vitória. Vemos a determinação de uma rapariga que quer ser campeã do mundo de boxe, a sua rápida ascensão, que a leva a derrotar todas as adversárias que enfrenta. E acompanhamos o drama da sua queda vertiginosa, o sofrimento insuportável. Saímos de lá abatidos.


E porque não uma minoria absoluta?

Ora, vamos pensar um bocadinho: é ou não verdade que, nos problemas verdadeiramente difíceis, quem tem razão começa por estar sempre em minoria?

São Pedro

Deus pode ser de direita, mas S. Pedro não é de certeza: Santana apanhou com quatro meses de seca; Sócrates já tem direito a uma pingas de chuva.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Apontamentos de uma noite eleitoral

1 - O PS foi o único vencedor das eleições. Ao não serem capazes de impedir a maioria absoluta, todos os outros perderam. Não vale a pena estar a dourar a pílula e assobiar para o lado.
2 - Inacreditáveis declarações de Paulo Portas - "... em nenhum país civilizado os trotskistas estão a apenas um ponto dos democratas-cristãos". Dou de barato que Portas queria dizer "desenvolvido", e não "civilizado". Se não foi, que venha explicar o que quer dizer "país civilizado". Mesmo assim, isto é praticamente um insulto às pessoas do BE e aos que nele votaram, que por esse raciocínio, só podem ser "incivilizados". Para quem esteve toda a campanha a falar do "ar de superioridade" de Louçã, isto só pode ser explicado por uma azia monumental ou mau feitio.
Também inacreditável é que ninguém (que eu tenha lido/ouvido) pronunciou-se sobre esta frase. Pelo contrário, foram todos unânimes em considerar as declarações "dignas". Os que foram tão ávidos a agarrar no "sorriso da criança" de Louçã estiveram calados... Enfim, é verdade que a maior parte das pessoas (eu incluído) só ouve bem aquilo que lhe interessa. E, ainda mais importante, todo defunto é boa pessoa.
3 - Também Louçã decidiu pôr logo o pé na poça. Equiparar o referendo ao aborto às medidas "políticas económicas no combate à exclusão e à pobreza" não parece exigência de quem vive em Portugal, nos tempos que correm. O Bloco ganhou muita responsabilidade ontem. Principalmente a responsabilidade de mostrar quem são as suas segundas linhas e do que são capazes. Se não o conseguir, e se não se permitir mudar os seus pontas-de-lança, o resultado eleitoral será mesmo histórico, porque nunca mais se vai repetir.
4 - Mais uma vez provou-se que o método de Hondt só funciona bem quando as votações entre os partidos são equilibradas. No caso português provoca grandes distorções entre o "valor do voto" nos partidos grandes e pequenos. Mas como os grandes são favorecidos, o melhor é deixar andar.

Um dia perfeito

Se dependesse de mim, se fosse eu a distribuir os votos pelos diversos partidos, não conseguiria uma coisa tão perfeita: a maioria absoluta para o PS, o crescimento de todos os partidos de esquerda, a derrota avassaladora do PPD/PSD, e, mais do que tudo, a derrota inequívoca do CDS/P(aulo)P(ortas). Confesso que para mim o momento da noite foi ver o líder dos centristas arrasado por descobrir que os portugueses não gostam dele.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Políticos

AVISO: Este post é politicamente incorrecto.
Nas últimas semanas, cheguei mais uma vez quase ao limite do que me é possível quando toca a aturar banalidades. Li vezes sem conta que o povo "sabe escolher", "não se deixa enganar", "vai separar o joio do trigo" e outras aberrações similares. Para quem tem andado noutros mundos que não este, deixem-me dizer uma coisa: o povo (seja lá o que isso for) não sabe escolher nem separar nada!!! Quantos mais Joões Jardins, Felgueiras, Avelinos, Berlusconis, Bushs serão necessários para provar isto à saciedade? Ainda querem mais? Vejam as sondagens de há um mês, revejam a campanha de Sócrates e comparem com as sondagens actuais.
Ainda muito mais irritante é quando oiço os meus colegas de trabalho, no café ou em qualquer outro sítio soltarem os já célebres provérbios: os políticos "são todos iguais", "são uns aldrabões" ou "só querem tacho". Quando ainda me resta alguma paciência, ignoro-os. Mas já dei comigo a perguntar a dois ou três "e o que é que pretendes fazer acerca disso?". Já imaginam que a resposta é ficarem especados a olhar para mim e não serem capazes de articular uma frase digna. Para quem não me conhece pessoalmente, afirmo que lido diariamente com professores, engenheiros, psicólogos, advogados; ou seja, pessoas com cursos superiores e profissões razoavelmente bem remuneradas. De todas elas ouvi semelhantes atrocidades.
Corrijam-me se estiver errado, mas não me consta que qualquer dos líderes dos principais partidos tenha visto a Quinta das Celebridades, ou os Morangos com Açúcar; tenha recebido o subsídio de desemprego sem estar desempregado, subsídio de doença sem estar doente ou o rendimento mínimo garantido sem ter a ele direito; tenha comprado um carro para uso próprio e descontado o seu valor no IRS; tenha declarado despesas que não fez; tenha utilizado atestados médicos fraudulentos para passar férias. Garanto-vos que conheço pessoas que fizeram tudo isto. Portanto, digo sem problemas: queria eu que nós todos tivéssemos o nível dos nossos políticos. Desejava eu ter o Jerónimo como colega de trabalho, o Santana como conversa de café, o Sócrates como vizinho ou o Louçã como professor. E tenho dito.

Indecisos

Sabendo-se que existe um número invulgar de indecisos, é estranho que nenhuma empresa de sondagens tenha procurado estudar o perfil destas pessoas: são de direita ou de esquerda, pensam votar ou abster-se, votaram nas últimas eleições legislativas ou não, hesitam entre que partidos (PSD/PP; PSD/PS; PS/partidos à sua esquerda; ou ainda abstenção/votar). Penso que este estudo não seria difícil de fazer e traria maior segurança às empresas, pois permitiria assim saber em que intervalos se encontram os indecisos, possibilitando estabelecer os vários cenários prováveis, para além dos apresentados pelas sondagens. Poderíamos conhecer melhor qual a tendência de votos, se haveria alguma possibilidade do PSD recuperar a desvantagem, se o PS pode ainda esperar um aumento da sua votação, ou se, pelo contrário, estão alcançados os limites da sua quota de votos, se é possível o PP subir, ou se, pelo contrário, os indecisos pertencem em grande parte à esquerda, e a tendência será estes se dividirem pelos partidos da esquerda.


quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Fátima

Confesso que tenho pouco apreço pela religiosidade que envolve as aparições de Fátima. Há muito de folclórico naquela devoção, alimentada por um misticismo inócuo. Para mim religião tem que ver com a busca de Deus, com a necessidade que temos de nos realizarmos enquanto seres humanos, não exclusivamente biológicos, mas providos de alma. A religião de nada serve se omitir os valores, se não nos melhorar enquanto pessoas, se não nos permitir o aperfeiçoamento, para podermos chegar a Deus, enquanto pai, e, consequentemente, ao próximo, enquanto irmão. É por isso que o cristianismo põe tanta ênfase na fraternidade universal, o conceito que melhor o define.
Ora eu não vejo o que é que Fátima tem que ver com isto, e sinceramente parece-me que a hierarquia da Igreja se sente bem incomodada com este tipo de manifestações religiosas. Parece-me que existe uma cedência à força popular. Seja como for, julgo que se deve respeitar as pessoas a quem Fátima diz tanto, sobretudo nesta hora de luto.

A propósito deste tema acho que vale bem a pena ler este e este posts, bastante diferentes, editados no Barnabé. Sobretudo este último, que é de uma sensibilidade apreciável.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Momentos de debate II

Santana: "A banca não me queria no governo". Uppercut (de direita).
Esquiva.
Louçã: "Ai, sim? Mas eu tenho aqui um documento que prova uma isenção de pagamento de impostos de 400 mil contos à banca". Directo (de esquerda) em cheio no queixo.
O adversário cambaleia.
Santana: "Está a falar de cor, ou tem os documentos da isenção?"
Louçã: "Tenho um documento do banco a dizer que só lhes interessa o negócio se houver isenção". Cruzado (de esquerda) nos rins. O adversário está encostado às cordas.
Soa o gongo. Santana busca auxílio nos assistentes.
A direita volta a baixar a guarda.
Santana: "É verdade, eu fiz, mas quem assinou foi o outro menino que estava antes de mim. E o vosso menino que estava antes de nós também fez".
Acusa Durão e Guterres. ???!!! Está a comparar-se a Guterres?!?!
Sócrates: (para Portas) "Não tente fingir que não fez parte do governo". Directo (de esquerda) no estômago.
O árbitro inicia a contagem.
Carvalho: "Já sabemos que Portas foi o único ministro que criou empregos neste governo."
10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1.
KO.

Momentos de debate I

Portas: "Eu quero electricistas e só me aparecem licenciados em Sociologia e História".
Mário, eu acho que ele estava a meter-se contigo.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Irmã Lúcia

A morte da senhora gerou em mim uma série de reflexões que partilho convosco:
1 - É algo estranho o silêncio da Igreja Católica. Estive a acompanhar de forma esparsa as notícias e não vejo manifestações de pesar significativas. Há alguma razão para isso ou é impressão minha?
2 - O que é que a campanha para as legislativas tem que ver com o acontecido? Não percebo a ligação entre o respeito devido à memória da irmã Lúcia e as acções de campanha.
3 - Embora não seja católico, sou fervorosamente cristão. E sendo decididamente anti-ritualista, todo este "circo" montado em Fátima faz-me confusão. Depois de ler várias versões da história de Lúcia - em algumas, serva de Deus, noutras, prisioneira da Igreja - digo que para mim mais valia que Fátima não existisse.

domingo, fevereiro 13, 2005

Isto é a sério?

Na sexta feira Luís Fazenda declarou que "o governo de Sócrates não produzirá qualquer mudança". Ontem Miguel Portas disse que "votar no PS exprime a vontade que algo comece a mudar". Conclusão de alguns escribas: "Era melhor para o próprio Bloco que os seus dirigentes falassem a uma só voz".
Tristeza minha, pensei que as pessoas nos partidos pudessem ter opiniões diversas... Quem escreve estas asneiras acha mesmo que num partido têm todos de falar as mesmas palavras, e que quem neles vota subscreve os programas de uma ponta a outra sem questionar uma vírgula que seja? Ou é mesmo falta de jeito?
É verdade que estamos mal servidos de lideres partidários, mas o nível da cobertura mediática, e por conseguinte, dos jornalistas em si, está ainda muito pior. O que seria de nós sem os blogs?

Magda Goebbels – 13 de Fevereiro de 1945

Faz hoje exactamente 60 anos, cerca de três meses antes da queda de Berlim, que Magda Goebbels, mulher de Joseph Goebbels, por quem Hitler havia sentido uma paixão platónica, recebeu a visita de Ello Quandt, sua amiga e cunhada, a quem fez estas impressionantes confidências*:

«Tenho de dizer-te uma coisa (…). Menti-te. Falei-te das armas milagrosas… É tudo uma tolice, uma sórdida fraude cozinhada por Joseph. Não nos resta nada, a derrota total é uma questão de poucas semanas (…). A curto ou a longo prazo, toda a Europa vai cair nas mãos dos bolcheviques. No que nos diz respeito, estando nós à cabeça do Terceiro Reich, devemos aceitar as consequências. Exigimos coisas inimagináveis à Alemanha e tratámos os outros povos com dureza. Os vencedores vingar-se-ão e não podemos parecer cobardes. Todo o mundo tem direito a viver. Mas nós não. Fracassámos. (…)
Eu estava aqui. Eu acreditava em Hitler e em Joseph Goebbels. Sou parte do Terceiro Reich (…). Se sobrevivo deter-me-ão e interrogar-me-ão sobre Joseph. Se digo a verdade, terei de retratá-lo como era, de descrever o que acontecia por trás das cortinas, e qualquer pessoa respeitável se afastará de mim com asco… Joseph é o meu esposo, devo-lhe lealdade e camaradagem, inclusive depois da morte… nunca poderia acusar-lhe de nada. (…)
Levaremos [os filhos] connosco porque são belos de mais para o mundo que se avizinha. (…)
Não te esqueças do que passou, Ello. Recordas-te do que disse sobre o que aconteceu no café “Anast” de Munique, quando o Führer viu aquele pequeno judeu e disse que adoraria calcá-lo como a um bicho? Eu não podia acreditar. Pensei que o dizia da boca para fora. Mas depois fê-lo. Passaram tantas coisas cruéis e inexplicáveis num sistema que eu também representava!... Ello, tenho de levar os meninos comigo. Só ficará Harold [do primeiro matrimónio], ele não é um Goebbels e felizmente está numa prisão inglesa. (…) Mas não morrerão. Nenhum de nós morrerá. Atravessaremos uma porta escura para uma nova vida.»

Como comentar estas palavras? Há no tom de Magda Goebbels uma mistura de pragmatismo cínico e altivez perante a derrota, uma percepção de certa forma comovente do erro, uma manifestação de ignorância, apesar da desconfiança, em relação aos crimes cometidos pelo nazismo, uma lealdade extremada ao marido e até ao Terceiro Reich, e uma metafísica pacóvia (será?) diante da morte iminente.


* Nota: este texto foi tirado do artigo El Búnquer, de David Solar, publicado na revista “La Aventura de la Historia”, de Novembro 2004. A tradução é minha, e imagino que não seja a mais perfeita.


sexta-feira, fevereiro 11, 2005

João Paulo II

Agora que o Papa está melhor já posso falar sobre este assunto. Não tenho nada contra João Paulo II, considero até que fez e está a fazer um bom pontificado, embora haja na sua acção aspectos que me desagradem, como a excessiva importância dada às questões da sexualidade (compreendo perfeitamente a sua posição conservadora em relação a estes temas, a sua idade assim o determina, mas julgo que a Igreja tem assuntos bem mais pertinentes a tratar).
Julgo, no entanto, que esta situação de impasse gerada pelos seus problemas de saúde está a ser bastante prejudicial à Igreja. Não faz sentido que uma pessoa tão débil em termos físicos possa estar à frente de uma instituição com esta dimensão. É certo que não é da tradição a resignação dos papas, mas há que ter em consideração que a medicina evoluiu muito nos últimos cem anos, que nunca como agora foi possível adiar a morte apesar da doença, manter a vida de um ser humano até uma situação de total fragilidade física, como acontece com João Paulo II. Este, que dificilmente poderá fazer peregrinações, presidir a liturgias e tratar dos assuntos quotidianos, só para referir as tarefas mais corriqueiras da sua função, não está por isso, e apesar da lucidez e a determinação que todos lhe reconhecem, em condições de ser o chefe daquela que é a maior comunidade religiosa do mundo, com todos os desafios que advém deste facto. A Igreja precisa de alguém na plenitude das suas capacidades para poder responder a estes desafios. Pode parecer cruel dizer uma coisa destas, mas é muito pior assistir serenamente ao definhamento de uma pessoa só por esta ser um líder religioso.


Já agora uma curiosidade, dos 183 actuais cardeais, apenas 119 são eleitores (já que os que têm mais de 80 anos não podem votar no conclave), sendo que destes, apenas 2 não foram criados por João Paulo II. Podemos ver assim quão determinado está à partida a eleição do próximo papa, que não deverá assumir posições muito diferentes das do actual. Espero, sinceramente, que esteja enganado, já que há posições que a Igreja não poderá sustentar por muito mais tempo.
Só para completar a informação, aqui fica a distribuição por continentes dos 119 cardeais eleitores (entre parêntesis o total dos cardeais):
Europa – 58 (94)
América Latina – 22 (31)
América do Norte – 14 (18)
África – 12 (16)
Ásia – 11 (18)
Oceânia – 2 (5)


quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Cartaz de campanha


Quem não se rir está morto!!!

Vera Drake

Mike Leigh dificilmente podia encontrar um tema mais actual. Com “Vera Drake” o realizador quis fazer uma espécie de manifesto pelo o direito das mulheres à interrupção voluntária da gravidez. Tenso e comovente, e muito bem realizado, o filme conta-nos a história de uma mulher de coração d’ouro que, às escondidas de todos, inclusive dos familiares, faz abortos. «Para ajudar as pequenas», dirá perante a polícia e a Justiça, depois de apanhada devido a uma interrupção fracassada.
O filme vale muito pelo ambiente suspenso que se gera entre as pessoas próximas de Vera Drake após a denúncia da actividade clandestina, com as diferentes reacções e opiniões, os confrontos e os diálogos secos. Imperdível.


Mal o filme começou a abordar a temática do aborto, duas pessoas de lugares distantes da sala abandonaram o cinema. Se tivermos em consideração que a grande maioria das pessoas se informa sobre os filmes antes de os ir ver, podemos bem perceber por esta amostra como esta temática incomoda muito.


terça-feira, fevereiro 08, 2005

É Carnaval, ninguém leva a mal...

Realmente não estava nada à espera que o início da campanha trouxesse de novo à tona esta delirante figura da democracia indígena que é Alberto João Jardim.
E o homem voltou imparável: primeiro, vem a revelação de não haver um só cartaz em toda a Madeira com o rosto de Santana Lopes; de seguida, a hilariante aparição no comício de Castelo Branco a abanar os braços e cantar: "o povo não se engana e vai votar Santana", e, por fim, o impagável discurso proferido hoje em resposta à "aposta" de Cavaco Silva.
Um João Jardim só é pouco. Se eu fosse Governo, prometo que haveria pelo menos um em cada capital de distrito.
Nota 1: Santana Lopes abriu a campanha com o Alberto João... depois não se venha queixar que anda sozinho.
Nota 2: As declarações de Sócrates em relação a Cavaco Silva... que democratas tão absolutistas temos nós! A monarquia já andou mais longe.

sábado, fevereiro 05, 2005

Coligações

Judite de Sousa, como jornalista bem informada que é, leu o "Rotação Difusa" ontem e atacou Santana Lopes com a pergunta: "e porque não uma coligação PS/PP?".
Agora mais a sério. Recuperando a opinião do Mário de há umas semanas atrás, com a qual concordo inteiramente, acho estranha essa obscessão de Santana e Portas com uma possível união de facto entre PS e BE. É como quem diz: "vejam lá, comam a sopa toda senão o Louçã e os amigos dele vêm para buscar-vos!". Será que, provado cientificamente que os comunistas não comem criancinhas, a direita quer convencer alguém que os bloquistas as devoram?
Explico melhor: há uns tempos o Mário ponderava não fazer sentido que seja um partido (muito) minoritário, no caso o BE, venha a condicionar a aplicação do programa de governo do partido maioritário. E tem toda a razão.
E há ainda uma segunda razão para que esta coligação tenha pouca credibilidade. Dado o nosso sistema eleitoral, mesmo uma grande subida do BE, para 4 ou 5% dos votos, pode não se traduzir em aumento do número de deputados. E estou mesmo convencido que é isto que vai acontecer.
Neste caso não faria sentido nenhum chamar o BE ao governo. Para quê? Dar ministérios a todos os deputados bloquistas? Não é viável. Neste caso o PS deve governar minoritariamente e procurar os acordos pontuais, como fez em 95-99.
E, voltando à abertura deste post. Repararam que Santana respondeu a Judite de Sousa com o compromisso pré-eleitoral firmado entre os partidos. Ora bem, seria muito mais coerente com o companheiro de governo retrucar com a incompatibilidade entre as propostas, ou com a inabilidade de Sócrates para formar um bom governo do que com um acordo assinado. Eu acho que isto quer dizer qualquer coisa...

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Santana vs. Sócrates

A entrevista conjunta de ontem à noite foi bastante previsível. Como nenhum dos temas que marca a diferença entre os dois foi abordado (política externa, por exemplo), resumiu-se ao anúncio da capacidade de cada equipa fazer cumprir o que apregoa. E, como também neste aspecto os dois têm telhados de cuspo, foi um empate sem golos. E o tema de fundo poderia ser o Rui Veloso a cantarolar "... é muito mais o que une, do que aquilo que nos separa...".
Por mais que tentem, Sócrates não vai falar em coligações até às eleições. Por um lado, é óbvio que a maioria absoluta está ali à mão, mas por outro, vejo muito mais facilmente o PS juntar-se ao CDS/PP do que ao BE. Aliás, quem tem acompanhado as declarações de Sócrates nota a falta de hostilidade em relação ao partido de Paulo Portas e até elogios a Bagão Félix, como no caso do orçamento ou da cobrança aos clubes de futebol. Quando é necessário, como aconteceu ontem, até é possível esquecer que o governo actual não é só o PSD. Não me surpreenderá nada termos estes dois, e mais alguns, mais 4 anos a mandar em nós.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Abrupto

Transcrevo o que Pacheco Pereira escreveu na edição de hoje do Público: "Bloco de esquerda - O interessante é ver como nas sondagens o BE recebe as intenções de voto dos bairros mais ricos das cidades. Não admira para quem conheça a sua "composição social", como se dizia no passado, assim como o conteúdo das suas propostas. O BE é, com o PP, um partido de gente que está bem na vida e dos seus filhos."
Portanto, o facto do BE ter melhores resultados nos centros urbanos (ou nos bairros 'ricos') não se deve, porventura, ao facto de as populações de classe média e media alta terem melhor nível académico e cultural, mais e melhores maneiras de conhecer as propostas dos partidos (e não só as pessoas), nem ao acompanhamento mais próximo da vida política, o que permite, naturalmente, maior diversidade de opiniões e escolhas de voto. Não, não é nada disso. Simplesmente o BE é um partido para os 'mais ricos'.
Na verdade, a opinião de Pacheco Pereira não me incomoda. Incomoda-me, e muito, é que ainda haja quem o considere uma pessoa séria.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Que venham

Há funcionários públicos a mais?
Eu hoje estive mais de 2 horas na Conservatória do Registo Predial em Braga à espera de atendimento.
Isto faz-se?

terça-feira, fevereiro 01, 2005

O Santo Sudário

Nota: Neste post refiro-me a um estudo realizado por Raymond Rogers, que saiu na revista Thermochimica Acta. Soube deste artigo pelo Público de 30.01.2005. Além do Público, o artigo foi referido em outros jornais e revistas, entre eles, para falar só em media escrita em português, BBC Brasil, Diário Digital, Revista Galileu.


A partir de um estudo efectuado por Raymond Rogers, chegou-se à conclusão de que o teste de carbono 14 realizado em 1988 ao Santo Sudário foi efectuado sobre um remendo e não sobre o próprio sudário, e que este é muito mais antigo do que o revelado por aquela datação, pondo em causa a ideia de falsificação medieval. A relíquia terá entre 1300 e 3000 anos.
Quem me conhece sabe que sempre considerei absurda a ideia de que o Santo Sudário pudesse ser uma falsificação medieval. Porque o pano é um mistério indesvendável; porque ninguém consegue perceber como é que a imagem do corpo crucificado ficou gravada; porque não há correspondência entre a figura fotografada e a iconografia medieval de Cristo; porque as marcas das feridas do crucificado adequam-se à forma como era feita a crucificação pelos romanos, que os medievais desconheciam (um exemplo muito referido é o dos pregos nos punhos – na Idade Média pensava-se que as pessoas eram pregadas nas mãos, tal como demonstram as pinturas da época); porque a informática detectou que existem marcas de palavras gregas incompreensíveis para a época (e mesmo que fossem compreensíveis, garanto que os medievais não falsificavam a pensar nos computadores); porque estes mesmos meios informáticos detectaram a existência de duas moedas do período do Imperador Tibério nos olhos da figura (de acordo com um costume judaico do século I de enterrar os mortos com moedas sobre os olhos - como é óbvio os medievais não conheciam este hábito, não tinham grandes noções de numismática e sobretudo não falsificavam a pensar nas tecnologias do século XX). Foram feitos inúmeros estudos aos vestígios de sangue, ao tecido de linho, às partículas de pó encontrada e aos grãos de pólen, etc., e todos eles comprovaram que tecido não podia ser feito na Europa medieval.
A questão é esta, aquele pano envolve um homem, crucificado nos moldes em que o eram os condenados no Império Romano, que conseguiu, de um modo inexplicável, estampar o negativo do seu rosto e do seu corpo nesse pano. Esse homem conseguiu fazer-se desaparecer num ápice pois todos os estudos revelam que se o homem tivesse sido desembrulhado, as marcas existentes no pano (não a figura estampada) teriam outra forma.
É preciso ainda acrescentar que os nossos conhecimentos sobre a Idade Média são suficientemente profundos para sabermos quais os seus desenvolvimentos técnicos e tecnológicos. E por isso não faz sentido supor que eles tinham uma misteriosa sabedoria de estampar figuras em panos que depois se perdeu.
O único dado que colocava o Sudário na idade média era o carbono 14. Mas os historiadores sabem que o carbono 14 é falível, e que esta técnica de datação deve ser cruzada com outras informações, e foi isso que muitos não quiseram fazer.
Agora que este estudo foi apresentado a discussão tem que começar outra vez. Já agora uma pergunta: porque não falam disto os telejornais, uma vez que foram tão rápidos a anunciar a notícia da falsificação?


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