domingo, outubro 31, 2004
Gente difusa I
«O melhor é o senhor trazer-me a pilha velha, ou então a máquina», disse-me o comerciante de uma loja de fotografia em Gouveia, «não quero que leve uma por engano.» Desconfiei da simpatia, os comerciantes têm esse jeito excessivo de serem atenciosos, mas lá voltei ao carro onde tinha deixado a máquina. Mostrei-lhe a pilha, exactamente igual, marca e tudo, à que ele tinha numa prateleira sob o balcão. Custava quatro euros e meio. Quando me preparava para pagar, o fotógrafo começou a ruminar qualquer coisa e depois de hesitar um pouco disse-me: «ora deixe-me cá ver se a sua pilha velha está realmente gasta. Às vezes pode ser um mau contacto.» Entrou numa sala anexa, voltou com um amperímetro e mediu a intensidade da pilha. «Está a ver, tal como calculava, está cheia.» Pegou ma máquina fotográfica, abriu o compartimento da pilha, raspou não-sei-o-quê, colocou um líquido não-sei-quantos, reintroduziu a pilha e ligou a máquina. Cheia de energia. Olhou para mim, sorridente, de um modo que só as pessoas reservadas sabem fazer - ainda teve tempo para me avisar do bocado de cotão que tinha no queixo, que a ele gostava que lhe fizessem o mesmo -, e eu agradeci-lhe. Pelo cotão e pela pilha.
«Não tem de quê, fico todo contente por lhe ter feito poupar quatro euros e meio.»
«Não tem de quê, fico todo contente por lhe ter feito poupar quatro euros e meio.»
quinta-feira, outubro 28, 2004
O católico Rocco Buttiglione
Esta história relacionada com Rocco Buttiglione é muito má para a Igreja Católica. O facto de ele aparecer sempre denominado como «o amigo de papa» pode levar as pessoas a ver nele uma espécie de representante da doutrina do Vaticano e consequentemente dos católicos. Acontece que apenas uma muito pequena minoria dos católicos concordam com as suas ideias, e mesmo o Papa, muito mais conservador que grande parte dos fiéis, dificilmente poderá sentir-se totalmente identificado com elas. Eu pelo menos não me lembro de alguma ter ouvido ou lido do Papa afirmações como aquelas que o político italiano faz em relação ao casamento e às mulheres.
sexta-feira, outubro 22, 2004
Jesus Christ Superstar
Estava eu ainda em Moçambique, andava por volta dos 7 anos, quando a um irmão meu ofereceram – penso que um professor - o disco «Jesus Christ Superstar». Desde então, de tanto o ouvir em casa, este disco tornou-se um dos meus favoritos, daqueles que se gosta de uma ponta a outra e que se conhece de cor e salteado. Canções como «I don’t know how to love him», cantada por uma Maria Madalena apaixonada, «King’s Herodes song», ou «Pilate’s Dream», foram ouvidas até à exaustão.
Depois os gostos evoluíram muito e o disco foi ficando cada vez mais esquecido nas estantes, embora de longe a longe recuperado por nostalgia. Com o surgimento dos CD, e a consequente substituição dos aparelhos de leitura, «Jesus Christ Superstar», em formato vinil, foi praticamente abandonado.
O curioso neste disco de infância é que, embora já não o oiça há muito, nunca consigo deixar de gostar, tendo dificuldade em saber se é porque o disco é mesmo bom ou porque as músicas me estão totalmente entranhadas no sangue.
Ontem, quando vinha a sair do Porto pelas Antas, e reparei num cartaz a publicitar uma nova encenação do musical «Jesus Christ Superstar» no Porto, não pude deixar de sentir uma enorme vontade de pegar no disco e ouvi-lo pela enésima vez.
Depois os gostos evoluíram muito e o disco foi ficando cada vez mais esquecido nas estantes, embora de longe a longe recuperado por nostalgia. Com o surgimento dos CD, e a consequente substituição dos aparelhos de leitura, «Jesus Christ Superstar», em formato vinil, foi praticamente abandonado.
O curioso neste disco de infância é que, embora já não o oiça há muito, nunca consigo deixar de gostar, tendo dificuldade em saber se é porque o disco é mesmo bom ou porque as músicas me estão totalmente entranhadas no sangue.
Ontem, quando vinha a sair do Porto pelas Antas, e reparei num cartaz a publicitar uma nova encenação do musical «Jesus Christ Superstar» no Porto, não pude deixar de sentir uma enorme vontade de pegar no disco e ouvi-lo pela enésima vez.
quarta-feira, outubro 20, 2004
A aldeia utópica de Shyamalan
Fui ver o último filme de Shyamalan, «A vila», um dos melhores deste ano. O filme, que recupera a temática da utopia e do sonho utópico, fala sobre uma vila, ou aldeia, uma espécie de comunidade protegida contra o mal - muitas vezes identificado com o progresso -, isolada artificialmente do resto da humanidade e rodeada de fantasmas. A aldeia é assim uma espécie de recuperação dos velhos mosteiros medievais, construídos em locais recônditos, afastados do pecado. No filme, o pecado são as cidades, de onde os anciãos fugiram devido a experiências traumatizantes.
Visto por alguns como uma crítica à sociedade americana de Bush, nós, os portugueses, podemos identificar a aldeia como uma rábula ao orgulhosamente sós do Estado Novo.
Visto por alguns como uma crítica à sociedade americana de Bush, nós, os portugueses, podemos identificar a aldeia como uma rábula ao orgulhosamente sós do Estado Novo.
terça-feira, outubro 19, 2004
Bresson: «a decisão do olhar»
Há uns anos, numa das poucas vezes que visitei Lisboa, aproveitei para passar, com a Eduarda, e por proposta dela, pelo Centro Cultural de Belém, onde estava em exposição uma retrospectiva de Henri Cartier-Bresson. Na altura, por escandaloso que possa parecer, já que ele é um dos mais conceituados fotógrafos de sempre, não o conhecia, e não tinha por isso consciência da importância dessa exposição. Foi pois uma autêntica revelação.
Na sexta-feira à noite passou na 2 um programa sobre Cartier-Bresson, entretanto falecido. No programa, pudemos ouvir o depoimento de várias personalidades, entre elas o de Isabelle Huppert, mas o mais interessante foi ouvir o próprio Bresson a falar da sua obra, contando pequenas histórias sobre fotografias que ia descartando.
Numa dessas fotografias vêem-se uns postigos abertos com mulheres debruçadas a espreitar, e Bresson comenta: «as portas estão fechadas quando elas têm cliente». Noutra, vê-se um casal de meia-idade dentro de uma sala, de olhar contrafeito a espreitar para quem entrava, em posição inquiridora; Bresson confessa-nos que quando entrou na sala e os viu naquela pose, nem esperou por cumprimentá-los e disparou a máquina, de impressionado que ficou. Mas pertubadora foi a história que contou sobre Gandhi. Pouco antes de ser assassinado este dizia-lhe (mais ou menos isto): «A morte, a morte é tudo!»
Das inúmeras histórias que contou pudemos aperceber-nos da sua enorme sensibilidade e sentido estético (e geométrico). Junto com a capacidade que tinha de captar estados de alma (das pessoas, dos locais ou países por onde passava), e com a extraordinária intuição política, como referiu um fotógrafo do programa (de cujo nome não me lembro), que o fazia estar sempre no local certo. É devida a essa intuição que ele nos deixou talvez o maior legado fotográfico da história do século XX.
Na sexta-feira à noite passou na 2 um programa sobre Cartier-Bresson, entretanto falecido. No programa, pudemos ouvir o depoimento de várias personalidades, entre elas o de Isabelle Huppert, mas o mais interessante foi ouvir o próprio Bresson a falar da sua obra, contando pequenas histórias sobre fotografias que ia descartando.
Numa dessas fotografias vêem-se uns postigos abertos com mulheres debruçadas a espreitar, e Bresson comenta: «as portas estão fechadas quando elas têm cliente». Noutra, vê-se um casal de meia-idade dentro de uma sala, de olhar contrafeito a espreitar para quem entrava, em posição inquiridora; Bresson confessa-nos que quando entrou na sala e os viu naquela pose, nem esperou por cumprimentá-los e disparou a máquina, de impressionado que ficou. Mas pertubadora foi a história que contou sobre Gandhi. Pouco antes de ser assassinado este dizia-lhe (mais ou menos isto): «A morte, a morte é tudo!»
Das inúmeras histórias que contou pudemos aperceber-nos da sua enorme sensibilidade e sentido estético (e geométrico). Junto com a capacidade que tinha de captar estados de alma (das pessoas, dos locais ou países por onde passava), e com a extraordinária intuição política, como referiu um fotógrafo do programa (de cujo nome não me lembro), que o fazia estar sempre no local certo. É devida a essa intuição que ele nos deixou talvez o maior legado fotográfico da história do século XX.
segunda-feira, outubro 18, 2004
A subida à Senhora da Graça
A subida à Senhora da Graça moeu muito mas correu bem. O empedrado do caminho dos romeiros, tornando o piso mais duro, facilitou a escalada, embora a humidade do musgo tivesse provocado algumas escorregadelas. O pior foram as diferenças de temperatura ao longo da escalada, que fizeram com que tivéssemos de estar sempre a despir e a vestir roupa. Nos últimos metros a temperatura começou a baixar a tal ponto que quando chegámos ao cimo estava um frio de rachar. Felizmente quase não apanhámos chuva pelo caminho e só quando atingimos à Senhora da Graça é que começaram a cair as primeiras gotas. Por sorte a capela estava aberta e servimo-nos dela como albergue, a proteger-nos contra o frio e a chuva.
Com a fome a apertar, e com a divina providência a abençoar-nos, encontrámos a senhora da Casa das Estampas que nos levou a um local abrigado, uma sala ampla com mesas e cadeiras, onde pudemos almoçar. O mais difícil foi sair de lá, devido a um vento gélido que nos fazia tiritar; mas havia que fazer marcha-atrás.
A descida, de tão íngreme, foi um martelar constante nas costas. O melhor foi a apanha dos medronhos, um fruto vermelho, muito redondo, do tamanho das cerejas mas com uma pele áspera, a saber a uma mistura de alperce e amora. Não é suculento, o que é uma pena, e pelos vistos tem muito álcool.
Chegámos a Mondim dispersos mas inteiros, e ainda houve tempo de ir tomar um café a Celorico.
Na via rápida entre Celorico e Amarante, um carro ultrapassou-me na subida, e mais adiante, já a descer, encontrei-o de papo para o ar. Felizmente, o condutor ficou completamente ileso, sem um único arranhão.
Com a fome a apertar, e com a divina providência a abençoar-nos, encontrámos a senhora da Casa das Estampas que nos levou a um local abrigado, uma sala ampla com mesas e cadeiras, onde pudemos almoçar. O mais difícil foi sair de lá, devido a um vento gélido que nos fazia tiritar; mas havia que fazer marcha-atrás.
A descida, de tão íngreme, foi um martelar constante nas costas. O melhor foi a apanha dos medronhos, um fruto vermelho, muito redondo, do tamanho das cerejas mas com uma pele áspera, a saber a uma mistura de alperce e amora. Não é suculento, o que é uma pena, e pelos vistos tem muito álcool.
Chegámos a Mondim dispersos mas inteiros, e ainda houve tempo de ir tomar um café a Celorico.
Na via rápida entre Celorico e Amarante, um carro ultrapassou-me na subida, e mais adiante, já a descer, encontrei-o de papo para o ar. Felizmente, o condutor ficou completamente ileso, sem um único arranhão.
sexta-feira, outubro 15, 2004
Monte Farinha
Amanhã vou subir a Senhora da Graça, a pé, por caminhos de romeiro. Sem ser por promessa, sem ser por castigo, apenas por apetecimento, por acreditar que percorrer caminhos íngremes faz bem à alma. O corpo que aguente.
terça-feira, outubro 12, 2004
Kusturica: muita farra, pouca uva
Ontem fui ver o último filme do Kusturica, «A vida é um milagre». Com um pé atrás, já que «Gato preto, gato branco» desapontara-me muito.
Os piores receios confirmaram-se. Se é certo que «A vida é um milagre» é um filme à Kusturica, com muita música, muita festa, personagens burlescas em constante algazarra - num ambiente simultaneamente caótico e bizarro de guerra, onde as situações confusas e de humor se sucedem -, a verdade é que não traz nada de novo e sobretudo revela-se completamente vazio de conteúdo, com uma história banal de amor. Pior, muitas das cenas de humor não têm piada nenhuma e são excessivamente infantis, já que o realizador abusa do atabalhoamento das personagens.
O melhor do filme são os carros em cima dos carris a atravessar a aldeia, o jogo de futebol e o rebuliço do carteiro na sala onde a orquestra da aldeia tocava, preocupado em dar a notícia da morte de um aldeão - a lembrar muito os filmes de Jacques Tati.
Em resumo, muita farra, pouca uva.
Os piores receios confirmaram-se. Se é certo que «A vida é um milagre» é um filme à Kusturica, com muita música, muita festa, personagens burlescas em constante algazarra - num ambiente simultaneamente caótico e bizarro de guerra, onde as situações confusas e de humor se sucedem -, a verdade é que não traz nada de novo e sobretudo revela-se completamente vazio de conteúdo, com uma história banal de amor. Pior, muitas das cenas de humor não têm piada nenhuma e são excessivamente infantis, já que o realizador abusa do atabalhoamento das personagens.
O melhor do filme são os carros em cima dos carris a atravessar a aldeia, o jogo de futebol e o rebuliço do carteiro na sala onde a orquestra da aldeia tocava, preocupado em dar a notícia da morte de um aldeão - a lembrar muito os filmes de Jacques Tati.
Em resumo, muita farra, pouca uva.
sexta-feira, outubro 08, 2004
Planeta em rotação difusa
O título deste blogue surgiu-me a partir de um verso de Daniel Faria do livro de edição póstuma Dos Líquidos, que diz, a propósito do inesgotável: «Amo-te como um planeta em rotação difusa».
«Planeta em rotação difusa» pareceu-me uma expressão perfeita, uma espécie de explicação da história da humanidade, perdida em órbita numa cronologia circular, em busca do absoluto.
«Planeta em rotação difusa» pareceu-me uma expressão perfeita, uma espécie de explicação da história da humanidade, perdida em órbita numa cronologia circular, em busca do absoluto.